Temporada do podcast Cirandeiras reflete sobre comida e sua relação com direitos humanos à comunicação, terra e a cultura
Raquel Baster *
Nos últimos anos, a discussão sobre alimentação saudável deixou de ser um tema exclusivo de nutricionistas ou acadêmicos – ela entrou no centro de conversas sobre políticas públicas. Nesse mês de janeiro foi divulgada a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos que enfatiza o consumo de mais proteínas e processados, porém esse incentivo não faz muito sentido em um país que já consome bastante carne vermelha, a não ser que a preocupação do governo não seja de fato em relação à saúde alimentar da população e sim da indústria alimentícia. Muito dessa discussão permeou perfis de redes sociais digitais que ofertam receitas em vídeos de pratos bonitos e planos de dieta e outras fórmulas de busca eterna por um emagrecimento.
O acesso à tecnologia colaborou para uma ampliação dessa pauta na população. Contudo, pirâmide alimentar já é vista há alguns anos como retrocesso nos estudos sobre alimentação porque ela coloca no mesmo grupo elementos que são muito diferentes sob a perspectiva do grau de processamento. Se faz importante provocar cada vez mais no debate público os efeitos do excesso de processados e ultraprocessados (formulações industriais derivadas de alimentos com aditivos químicos) à saúde, e apesar do Guia dos Estados Unidos orientar a diminuição deste último, essa pauta não pode vir descolada da luta pela terra, da necessidade de reforma agrária, da emergência climática e de outros direitos humanos, como a comunicação.
A temporada Cozinhas do podcast Cirandeiras, lançada no final de 2025, propôs refletir sobre a relação entre a luta por direitos e a memória histórica da alimentação. A cozinha — como espaço físico e simbólico — não é apenas o lugar onde se preparam alimentos, é também um lugar de reproduções e resistências sociais, de imposições de hierarquias e de invenções culturais. É lá que se cruzam disparidades raciais e de gênero, saberes ancestrais e os desafios de promover saúde em contextos que historicamente foram e ainda estão em situação de vulnerabilidades.
A temporada do podcast contou com apoio do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, e produziu três episódios de cerca de 20 minutos cada, disponível em todas as plataformas de podcast. Essas produções em áudio foram resultados de formações em educação popular, onde comunicadoras de três territórios (Sergipe, São Paulo e Amazonas) aprenderam sobre técnicas de podcast e colaboraram na produção e entrevistas dos episódios. Durante a temporada foi discutido a comida e os diversos segmentos culturais das cozinhas tradicionais, como a de roça, a quilombola, a indígena e a luta por direitos que entrelaçam os sabores e saberes ao pé da cozinha: direito à terra, à comunicação e à cultura.
Cozinha inerente a outros direitos humanos
O primeiro episódio ‘Cozinha e o Direito à Comunicação’ evidencia o papel da comunicação na promoção de visibilidade para saberes alimentares femininos e comunitários. Edna Celestino, agricultora e integrante do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE), aprendeu a usar a tecnologia para poder difundir produtos da agricultura familiar e defender a importância do consumo de alimentos sem agrotóxicos. Ano passado, inclusive, no dia 30 de junho de 2025, depois de muita luta de várias organizações da sociedade civil e também do MMTR-NE, o Governo Federal instituiu o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara).
Importante ação para o Brasil que foi considerado o país que mais usa veneno no mundo de acordo com o último levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – a FAO, lançado em 2024. “A metade dos meus ingredientes são produzidos na minha agricultura. Eu é quem planto, quem colho e a metade são de outras companheiras, eu compro de outras companheiras. Porque assim, a puba eu faço da minha macaxeira e a tapioca, como eu não tenho maquinário, eu compro de outras companheiras”, destaca a agricultora em entrevista ao podcast.
Edna e outras companheiras aprenderam a se apropriar da tecnologia para escoar seus produtos com vendas online e fortalecer seu acesso e participação nas políticas públicas do universo digital, como o Bolsa Família, por exemplo. “O projeto Do Quintal à Cozinha criou uma ferramenta digital que veio para nos ajudar a divulgar os nossos produtos, os nossos saberes, as nossas histórias e também veio para ajudar as mulheres a divulgar suas receitas, compartilhar, mesmo de longe. Com esse projeto, eu venho aprendendo a mexer em aplicativos que eu não sabia, a participar de reuniões virtuais e usar ferramentas digitais junto com as companheiras”, detalha Edna Celestino.
No episódio ‘Cozinha e o direito à terra’ com dona Laura Braga, remanescente de quilombolas em Ubatuba (SP) e coordenadora do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), mostra como a luta pela titulação de territórios tradicionais está atrelada à possibilidade de produzir alimento em sintonia com os biomas. Essa conexão entre território e alimentação destaca que saúde e autonomia alimentar dependem também do acesso à terra e ao modo de vida tradicional, rompendo com o paradigma da alimentação industrializada como norma.
Dona Laura é uma matriarca que há anos defende a demarcação de terra de sua comunidade que, apesar de ser reconhecida pela Fundação Palmares, o território ainda não foi demarcado. Em 2023, o quilombo da Fazenda conquistou o TAUS – Termo de Autorização e de Uso Sustentável Coletivo, um instrumento de reconhecimento territorial de povos e comunidades tradicionais que vivem e cuidam de áreas da União brasileira. O documento é importante para garantir maior segurança de posse enquanto não vem a demarcação.
E foi justamente pelo caminho da cozinha que dona Laura encontrou uma estratégia de defesa de sua comunidade à época da sobreposição de uma unidade de conservação no quilombo. “A ideia do restaurante foi exatamente no momento de luta, onde nós perdemos a nossa cultura por conta do Parque Estadual da Serra do Mar, Fundação Florestal, perdemos a nossa cultura, não podíamos mais pescar, não podíamos construir, não podíamos plantar, perdemos aí os nossos produtos da roça, ficamos numa necessidade muito grande, passando até necessidade, aí a gente começou a tentar então a fazer um turismo e aí tinha que ter a cozinha”, defende dona Laura.
O terceiro e último episódio ‘Cozinha e o direito à Cultura’ entrevista a chef indígena Neurilene Cruz, da etnia Kambeba, da aldeia Três Unidos, no Amazonas, ressaltando a importância de celebrar ingredientes e modos de preparo indígenas como formas de afirmar identidade cultural, promover autonomia econômica e resgatar saberes alimentares ancestrais. Ao ensinar culinária tradicional e criar um restaurante solidário, Neurilene liga práticas culinárias à dignidade cultural e a geração de renda para mulheres de sua comunidade. Hoje o Restaurante Sumimi, criado por Neurilene, tem capacidade para atender 100 pessoas. Sumimi, na língua Kambeba, se refere ao nome de um pássaro.
Neurilene montou inicialmente um refeitório para cozinhar para os trabalhadores uma comida que ela chama de regional, com pratos de frango e carne bovina. Produtos que tinha que comprar fora da aldeia. Com a expansão do Sumimi, Neurilene foi sentindo também que era o momento de trazer mais a culinária tradicional para dentro do restaurante. “São dois ingredientes principais do nosso prato aqui dentro do restaurante, que é o peixe e a macaxeira que vem da nossa fortaleza, que é o rio e a terra”, destaca. O restaurante é espaço também de formação para outras mulheres indígenas e vem sendo mantido em uma realidade sem acesso à energia elétrica e até alguns anos atrás sem água potável. Cultura alimentar tem tudo a ver com justiça climática.
O espaço político das cozinhas brasileiras
Historicamente, a cozinha tem sido um lugar de trabalho feminino e racializado. Durante a escravidão no Brasil, mulheres negras foram compelidas a preparar alimentos em condições desumanas para atender famílias brancas abastadas. Este dado histórico nos remete à ideia de que a divisão social do trabalho não só relegou mulheres negras às cozinhas domésticas, como também desvalorizou o conhecimento que elas detinham e transmitiam sobre alimentação nutritiva, plantas medicinais e práticas culinárias tradicionais.
Essa exploração se estendeu ao longo do tempo, transformando-se — inclusive depois da abolição formal da escravidão — em relações de trabalho doméstico precarizadas, muitas vezes implementadas sem reconhecimento ou remuneração adequados. Mesmo após reformas trabalhistas, a figura da “empregada doméstica” multitarefa persiste como um vestígio dessa estrutura, o que aponta para a necessidade de olhar para as relações de trabalho na cozinha com uma perspectiva crítica de gênero e raça. Ao mesmo tempo, a cozinha foi e ainda é um território de solidariedade entre mulheres. É nela que muitas vezes se construíram redes de apoio, trocas de saberes ancestrais, transmissão de técnicas alimentares tradicionais e até estratégias de resistência política.
A cozinha podia ser, e muitas vezes era, um local de criação de laços comunitários onde se preservava conhecimento sobre plantas alimentícias e medicinais, se reforçava a identidade cultural e se sustentava a vida frente às adversidades. Estas contradições — de exploração e de resistência — mostram o quão rico e complexo é a história das cozinhas brasileiras, sobretudo quando vista à luz das experiências de mulheres negras e de outras comunidades tradicionalmente invisibilizadas. Combater a proliferação de alimentos ultraprocessados é também recuperar práticas alimentares baseadas em ingredientes naturais ou minimamente processados — precisamente o que muitas cozinheiras tradicionais e comunitárias já faziam antes da massificação dos produtos industriais.
O Brasil entrou e saiu novamente do Mapa da Fome, mas isso não quer dizer que ainda não existam pessoas sem direito à alimentação digna no nosso país. A defesa de saberes culinários tradicionais, valorizada na temporada Cozinhas do Cirandeiras, é uma forma de resistência cultural contra a homogeneização imposta pelos mercados e indústrias alimentares. Isso implica afirmar modos de alimentar que respeitam o corpo, as comunidades e a natureza, assim como já aponta as diretrizes apresentadas no Guia Alimentar para a População Brasileira, que completou 10 anos em 2024 e que, diferentemente do Guia dos Estados Unidos, preconiza a alimentação enquanto saúde pública.
E por fim, promover saúde é também promover justiça socioambiental e cultural: é valorizar os saberes de mulheres negras, quilombolas, indígenas e rurais que, apesar de terem sido marginalizados, continuam preservando práticas alimentares profundamente conectadas com bem-estar, identidade e resistência. Esses contextos nos convidam a repensar não apenas o que comemos, mas quem tem voz para contar essas histórias, quem tem acesso à terra e ao alimento de qualidade e como podemos construir coletivamente modos de vida que promovam dignidade e saúde no Brasil.
* Raquel Baster é jornalista e educadora popular, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba e associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.