A urgência em ampliar o debate sobre segurança nas redes parte da necessidade de proteger corpos femininos em meio às engrenagens invisíveis que operam no cotidiano digital: os algoritmos. Eles organizam o que vemos, criam bolhas, amplificam vozes, silenciam outras e, nesse processo, moldam experiências que, para as mulheres, frequentemente se traduzem em exposição, vulnerabilidade e violência reiterada. Não se trata apenas de tecnologia, trata-se de poder que extrapola o ambiente virtual e se materializa no dia-a-dia.
No Brasil, onde 41,8% dos usuários seguem influenciadores (uma das maiores taxas globais), a vulnerabilidade é acentuada. Sem leis que obriguem a transparência algorítmica, as mulheres ficam expostas a uma manipulação invisível, que vai desde a segmentação de anúncios abusivos até a facilitação de crimes digitais e assédio facilitado por dados pessoais processados sem consentimento explícito.
A humanidade está profundamente conectada, onde a identidade digital muitas vezes precede a física. Para as mulheres, essa hiperconectividade representa um território de riscos exacerbados por algoritmos opacos em um cenário de vácuo legislativo preocupante, apesar do Marco Civil da Internet (2014), da Lei Geral de Proteção de Dados (2018) e, mais recente do ECA Digital (2025).
Acontece, que a engrenagem que move as redes é ditada pela retenção. O crescimento exponencial de plataformas como o TikTok, onde usuários passam em média 35 horas por mês, é impulsionado por mecanismos como o feed “#fyp” (For Your Page), desenhados para entregar conteúdos que geram engajamento máximo. O risco reside no fato de que esses algoritmos não possuem filtros éticos ou de gênero inerentes. Fator que, na ausência de uma regulamentação estatal rigorosa a fim de exigir transparência sobre como esses dados são processados, as mulheres tornam-se alvos fáceis para a amplificação de discursos de ódio, padrões estéticos inalcançáveis e a exploração de vulnerabilidades psicológicas para fins comerciais. Leia também o artigo da jornalista Katherine Flor: Como os algoritmos das Big Techs moldam o debate público?
Diante disso, é preciso compreendermos que os algoritmos não são neutros, são estruturas alimentadas por dados históricos e por lógicas de engajamento que tendem a privilegiar conteúdos que geram reação: e a violência, infelizmente, engaja, e proporciona impactos maiores sobre mulheres negras, indígenas, LBTs (Lésbicas, Bissexuais, Trans e Travestis), periféricas, defensoras de direitos humanos e ambientais e jornalistas, que temos visto se tornarem alvos recorrentes de ataques coordenados, desinformação e assédio. O que deveria ser espaço de expressão se converte, muitas vezes, em território hostil, reverberando discursos de ódio, ataques misóginos e campanhas de difamação frequentemente impulsionados, criando ciclos de revitimização.
Nesse cenário de impulsionamento de conteúdo e geração de lucros, precisamos evidenciar a necessidade e urgência de proteção de direitos fundamentais em meio a um ecossistema onde a violência digital não apenas circula, mas, ela é, em certa medida, incentivada. Porque, afinal, como falar em soberania num cenário de profunda dependência tecnológica?
Embora o Brasil tenha avançado com marcos importantes, citados anteriormente, ainda persiste um hiato regulatório no enfrentamento específico da violência de gênero mediada por plataformas. Esse vazio se manifesta em três dimensões críticas: (I) responsabilização difusa, as plataformas operam com autonomia significativa, sem obrigações evidentes de prevenção e mitigação de danos. (II) moderação opaca, ou seja, falta transparência sobre critérios de remoção, priorização de conteúdo e funcionamento algorítmico; e ainda, (III) resposta lenta, os mecanismos de denúncia são burocráticos e frequentemente ineficazes diante da velocidade dos ataques. Haja vista que a violência nas redes não se encerra no ambiente virtual porque ela transborda para o mercado de trabalho, afetando reputações e oportunidades; para a saúde mental, com impactos duradouros e finais trágicos; e para a segurança física, em casos de perseguição e exposição de dados pessoais.
Contudo, a conexão é um caminho sem volta, e o Brasil está na vanguarda desse consumo, porém, o futuro digital não pode ser desenhado apenas por linhas de código orientadas ao lucro e desacompanhada da proteção aos direitos fundamentais. É preciso centralizar o cuidado como princípio estruturante, no qual, mulheres não podem continuar pagando o custo invisível de sistemas que lucram com sua exposição e vulnerabilidade. Pois, sem regulação eficaz, a tecnologia amplia desigualdades, enquanto a governança responsável pode ser ferramenta de emancipação da qual depende a segurança das mulheres nas redes. Para isso, Estado, plataformas e sociedade civil precisam assegurar que o “curtir” não tenha como preço a integridade feminina.