Organizações e territórios se juntam para implementação da rede comunitária de Internet no povoado de Bela Vista, em Igreja Nova (AL)
Entre os dias 16 e 19 de julho, os projetos Semeando Redes Resilientes: infraestrutura e formação para proteção territorial e Raízes da Conectividade realizaram um encontro no povoado de Bela Vista, Igreja Nova (AL), para a implementação da Rede Comunitária de Internet na comunidade. Construída com as mulheres e jovens da comunidade, a iniciativa marca o início de um ciclo de formação realizado pelo Instituto Nupef, que compartilha a sua metodologia com outras organizações e territórios, bem como dá continuidade ao projeto Raízes da Conectividade co-criado pelo Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais e Pescadoras de Alagoas (MMTRP-AL), o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural de Sergipe (MMTR-SE), o Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais da Paraíba (MMTR-PB) e o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, com apoio da LOCNET-APC.
O Intervozes esteve na implementação representado por Tâmara Terso, Júlia Lanz, Pedro Ekman e Élida Miranda. Além de Bruna Hercog, também associada ao coletivo e coordenadora de comunicação do Nupef, além de facilitar o módulo de Comunicação para Proteção Territorial. A comunidade de Bela Vista, onde foi implementada a rede, é parceira do Intervozes desde 2020, a partir do mapeamento sobre os usos da Internet, Tecnologias da Informação e Justiça Socioambiental em comunidades rurais e quilombolas do Nordeste, realizada em parceria com o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE). Desde então, inúmeras ações de formação, incidência política, intercâmbios, produção de conteúdo e apropriação tecnológica vêm sendo realizadas junto a essas comunidades, no âmbito do Programa Territórios Livres, Tecnologias Livres do Intervozes.
O projeto Semeando Redes Resilientes é realizado também em parceria com a Associação Pipa e o Núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e tem apoio da Internet Society Foundation. Em Bela Vista, a atividade contou ainda com os grupos de mulheres dos povoados de Chinaré e Vista Alegre, ambos integrantes do MMTRAL. Mais do que instalar equipamentos, a formação combina conhecimentos técnicos, uso seguro da Internet, mobilização comunitária e comunicação para proteção territorial.
A condução da parte teórica e prática da atividade foi realizada por Zeilane Fernandes, assessora de projetos da área de Tecnologia do Nupef e uma das facilitadoras do módulo de Tecnologia e por Renato Racin, que integra a equipe de tecnologia do Nupef e é responsável pela T.I. do Intervozes.
“A importância de compartilhar o conhecimento desenvolvido pelo NUPEF é a gente sempre ter a oportunidade de pensar que os protocolos para criar um desenho de uma rede comunitária são feitos no território. Então poder visitar territórios diferentes com diferentes realidades faz com que a gente consiga criar metodologias que são coletivas e que de fato vão conseguir atender demandas de conectividade e rede local”, afirmou Zeilane.
Expectativas de transformação a partir da comunidade
Rafaela Leão, moradora e liderança do grupo de mulheres da comunidade, vê a chegada da Rede Comunitária como oportunidade de acesso e de renda. “O futuro que eu imagino com essa rede é que a gente possa ter mais oportunidades para as mulheres e jovens também, para que seja um meio de possibilitar que esses jovens acessem conteúdos que tragam benefícios. E para as mulheres na questão do fortalecimento de renda, podemos usar essa rede para vender nossos produtos de agricultura, nossos produtos da pesca, então eu posso ver um belo e lindo futuro para nossa comunidade em si.”
Rafaela também falou da expectativa de no futuro ter toda a comunidade com a cobertura da rede: “por enquanto a gente está fazendo o teste em uma pequena parte, mas se tudo der certo, pretendemos expandir para toda a comunidade. Para que todos nós possamos usufruir dessa tecnologia, dessa rede comunitária.”
As lideranças do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural de Sergipe, da Paraíba e do Movimento de Mulheres Indígenas Tabajara que participaram da implementação destacaram a importância da tecnologia servir ao território, e não o contrário. “A comunicação é um direito que garante todos os outros direitos. O acesso à Internet não responde apenas a uma necessidade técnica. Estamos vendo que aqui em Bela Vista, por exemplo, muitas famílias já possuem Internet em suas casas. O que a rede comunitária fortalece não é a conectividade individual, é a organização política e comunitária do território”, destacou Verônica Santana, liderança do MMTR-SE.
Pelo Intervozes, Tâmara Terso destacou a importância da cocriação de ações no âmbito da comunicação e das tecnologias para o fortalecimento das comunidades lideradas por mulheres e pessoas negras. “É importante entender que os territórios, em especial os liderados pelas mulheres e pessoas negras, constroem historicamente tecnologias para formar comunidades. Contudo, muitas tecnologias modernas chegam de cima para baixo e tentam descreditar ou substituir as ferramentas comunitárias como forma de imprimir tipos de opressões. Assim, cocriar ações que retomem as iniciativas coletivas de comunicação e tecnologias ajuda a proteger a memória e a acolher as pessoas em um projeto coletivo de bem viver. Eu vejo na Rede Comunitária de Internet essa retomada do significado de bem comum para o bem viver, que pode passar pelo acesso à internet, mas não se encerra nele ”.
Próximos passos
Após o encontro presencial, a formação segue por mais três meses em formato online. A expectativa é que até o final do projeto, a Associação Pipa e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) também tenham implementado redes comunitárias nas comunidades onde atuam. Já o projeto Raízes da Conectividade segue construindo um centro comunitário que servirá de sede para o Grupo de Mulheres em Ação da Comunidade de Bela Vista, bem como um laboratório de tecnologias com o objetivo de fortalecer a apropriação das mulheres e jovens às tecnologias digitais e sociais que protejam seus territórios.
*Com informações do Nupef aqui no link