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Big Brother Brasil: 100 dias entre o espetáculo e a ética 

Big Brother Brasil: 100 dias entre o espetáculo e a ética 

Recentemente parei para refletir sobre a pauta deste artigo: o Big Brother Brasil, e no percurso entre a reflexão e a escrita fui tomada pela lembrança dos meus primeiros anos da graduação em Comunicação Social/Jornalismo, à época o reality deveria estar em sua décima ou décima primeira edição. Nas aulas de Sociologia, as análises provocavam descobertas e indignações quanto aos reflexos e impactos da espetacularização promovida naquele espaço. Hoje o BBB superou duas décadas no ar e esse formato de entretenimento parece ter se revestido de normalidade ao ponto de as violências e violações ali praticadas não causarem tanta indignação, dada a audiência em expansão para outros meios de comunicação para além da televisão.

Percebe-se que, cronologicamente, o BBB se estruturou como um produto de entretenimento de alta performance e passou a operar como um espelho ritualizado da nossa contemporaneidade, traduzindo em linguagem televisiva os dilemas centrais do cotidiano da vida social. Quando fazemos o exercício de relacionar teorias sociológicas e de comunicação com esse formato de programa televisivo, fica evidente que a força de audiência reside na capacidade de converter o cotidiano em espetáculo contínuo, integrando vigilância, consumo e afetos em um mesmo espaço-tempo narrativo. Nesse ponto, o diagnóstico de Zygmunt Bauman sobre a sociedade de consumo se materializa, na qual a vida passa a ser organizada sob o signo da descartabilidade, da obsolescência acelerada e da exigência permanente de visibilidade.

Haja vista que os participantes são moldados como sujeitos-consumo: valem enquanto geram atenção, engajamento e circulação simbólica numa engrenagem de vínculos frágeis e narrativas rápidas que projetam quedas espetacularizadas. Com Bauman compreende-se que essa dinâmica reflete a efemeridade da vida social, em que nada é feito para durar e tudo é avaliado por sua capacidade de produzir impacto imediato. Qual seja, o acompanhamento integral das pessoas confinadas monitoradas por câmeras 24 horas, transmissão multiplataforma, interação em tempo real, fator que não aprofunda a experiência humana, mas a fragmenta em instantes consumíveis, reafirmando a lógica da liquidez social.

Essa superexposição conflita com a perspectiva de Hannah Arendt, em sua obra “A Condição Humana”. Para a filósofa, a vida humana se organiza entre as esferas do privado, do social e do público, sendo este último o espaço da ação e da palavra, onde os indivíduos constroem um mundo comum. Porém no âmbito do BBB, essa dinâmica é desarticulada: o privado é capturado, o social é dramatizado e o público é reduzido à visibilidade sem ação. Há aparência, mas não há mundo comum. Há fala, mas não há deliberação. A política, entendida por Arendt como ação plural entre iguais, é substituída por performance individual diante de um público consumidor .

Essa substituição molda as relações, conforme apontam os estudos do sociólogo John B. Thompson ao demonstrar como a modernidade midiática transforma as formas de visibilidade e, com elas, as relações de poder. No BBB, a visibilidade é assimétrica: os participantes são vistos sem ver, expostos sem controle sobre os enquadramentos que os definem, a exemplo da exibição do momento ao vivo do programa com recortes de 24h de gravações. Trata-se de uma intimidade mediada, na qual a audiência acumula poder simbólico ao observar, julgar e descartar, nisso, a vigilância torna-se cultural e internalizada como regra do jogo.

Outra característica evidente desse aprimoramento do reality, ao longo desses 25 anos, vale destacar que já aconteceram duas edições em um mesmo ano, é a ocupação de outros espaços onde a sociedade se encontra, em rede, conforme conceito do sociólogo Manuel Castells. O BBB não se limita mais à televisão: ele se expandiu para plataformas digitais, onde narrativas são disputadas, identidades são reconfiguradas e reputações são construídas e destruídas em velocidade muito rápida. Essa lógica do fluxo substitui a lógica da permanência, pois, cada acontecimento é rapidamente absorvido, comentado e superado por outro, reforçando a temporalidade acelerada e instável que caracteriza a comunicação em rede.

Nesse contexto, a percepção dos princípios e valores é drasticamente afetada a exemplo do “quarto branco”. Um espaço físico no contexto do jogo que constitui o ponto de maior densidade ética e simbólica do Big Brother Brasil, visto que ele explicita a fronteira instável entre entretenimento, sofrimento e regulação normativa. Enquanto dispositivo de isolamento, privação sensorial e vigilância permanente, ele aciona mecanismos psíquicos amplamente descritos pela ciência como geradores de estresse extremo, desorientação temporal e colapso emocional. 

Talvez essa parte do jogo é a que melhor materializa a obra 1984, de George Orwell, porque faz uso do ambiente como tecnologia de controle subjetivo: assim como no romance, não se trata apenas de observar o corpo, mas de desorganizar a consciência, produzir autocensura e submeter as pessoas à internalização da vigilância. Contudo, diferentemente do totalitarismo estatal orwelliano, o quarto branco opera sob a mediação cultural do espetáculo. O que o antropólogo e filósofo Jesús Martín-Barbero nos permite compreender como um ritual midiático legitimado socialmente, em que o sofrimento é ressignificado como prova, desafio e narrativa de superação, tornando-se aceitável dentro das matrizes culturais do entretenimento.

A questão é: embora as pessoas participantes assinem termos de consentimentos quanto à participação em todas as provas do jogo, quais são os limites éticos e legais? Podemos analisar a prova do “quarto branco” como um aspecto de tensão relevante com a legislação brasileira?

Avalie: a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) estabelece como princípio ético fundamental a proteção da dignidade, da integridade psíquica e a minimização de riscos aos sujeitos envolvidos em pesquisas, vedando práticas que produzam sofrimento desnecessário ou danos previsíveis à saúde mental . Nesse mesmo sentido, a Resolução nº 510/2016 do mesmo Conselho, ao tratar das especificidades das ciências humanas e sociais, reconhece que a exposição simbólica e emocional também constitui risco ético relevante, exigindo cuidado redobrado quando há assimetria de poder e consentimento condicionado. 

Contudo, embora o BBB não se configure juridicamente como pesquisa científica, a convergência reside no reconhecimento normativo de que o sofrimento psíquico não pode ser banalizado; a divergência, por sua vez, está no fato de que o regime do entretenimento televisivo escapa a essas salvaguardas, operando em uma zona cinzenta onde o consentimento contratual legitima práticas que, sob outro enquadramento, seriam eticamente questionáveis. Haja vista que o quarto branco, expõe não apenas os limites da resistência humana, mas também os limites da legislação frente à espetacularização da dor, revelando como a mediação cultural pode neutralizar princípios éticos a fim de que o sofrimento se converta em audiência.

Retomando à obra de George Orwell, enquanto no romance, o poder se exerce pela vigilância constante e pela internalização do olhar do outro, o quarto branco opera como uma versão espetacularizada do dispositivo orwelliano: onde a pessoa é isolada, observada e levada ao limite de sua resistência psicológica. Ainda que, no BBB, esse controle não seja imposto por um regime totalitário, ele é amplamente aceito como entretenimento legítimo, naturalizado pelo mercado e pela audiência .

Nesse contexto, Jesús Martín-Barbero ao deslocar a análise “dos meios às mediações”, nos permite compreender que o poder do BBB não está apenas na tecnologia ou no formato, mas nas mediações culturais que o tornam inteligível e aceitável de forma que a quarto branco funciona como um ritual midiático que articula melodrama, sofrimento e reconhecimento, tornando-se em um processo complexo de apropriação simbólica, no qual o público reconhece, consome e legitima o espetáculo da dor.

Portanto, é factível que o Big Brother Brasil revela-se menos como uma anomalia e mais como uma síntese eficiente da modernidade midiática brasileira, conforme apontam as perspectivas de Bauman, Arendt, Thompson, Castells, Orwell e Martín-Barbero, cujos pensamentos convergem para a percepção de que vivemos uma era em que a visibilidade substitui a ação, a vigilância se converte em entretenimento e a experiência humana é constantemente mediada por dispositivos que prometem conexão, mas entregam controle.