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Entre narrativas e silêncios, a luta pela terra persiste e se fortalece

Entre narrativas e silêncios, a luta pela terra persiste e se fortalece

Mesmo invisibilizado e criminalizado, o MST cresce, produz e disputa sentidos, revelando o abismo entre a realidade do movimento e a forma como é narrada

Por Júlia Lanz*

Neste mês, celebramos o Abril de Lutas do MST. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra trava, há décadas, uma luta que floresce mesmo no silêncio da mídia. O Intervozes, por duas vezes, pesquisou a cobertura da mídia sobre o movimento e suas lutas. Nas pesquisas, é fácil identificar a falsa imparcialidade da mídia dita tradicional, que não apenas invisibiliza a versão do movimento, como o criminaliza em suas notícias tendenciosas.

As edições da pesquisa Vozes Silenciadas sobre o MST foram realizadas em 2011 e em 2023. Em ambas, o foco foi na cobertura da mídia sobre a CPMI e a CPI realizadas no Congresso Nacional para investigar o movimento. Apesar dos doze anos de diferença entre a realização delas, percebemos que não houve muita mudança. O MST segue invisibilizado e, quando aparece, é criminalizado. Mas, apesar da perseguição, o movimento cresce, segue firme e forte na luta pela terra, pela reforma agrária e na produção de alimentos agroecológicos pelo Brasil. E nós, do Intervozes, seguimos apoiando essa luta que floresce e acreditando que o direito à comunicação e a pluralidade de vozes é fundamental para a democracia.

Se olharmos mais de perto os dados da pesquisa de 2011, o cenário já era bastante evidente. A análise de cerca de 300 matérias em veículos de grande alcance mostrou que, em quase 60% dos casos, o MST era associado a termos negativos. Palavras como “invasão”, “invasores” e “invadir” apareciam de forma recorrente, como se fossem suficientes para dar conta da complexidade da luta pela terra no Brasil. Ao mesmo tempo, o próprio movimento foi ouvido em apenas 18,9% das matérias, e a reforma agrária, sua pauta central, apareceu em apenas 14,6% da cobertura. Há ainda uma associação sistemática com a violência, muitas vezes colocando o MST apenas como autor de conflitos, sem considerar o contexto ou os demais atores envolvidos. Não se trata de detalhe: trata-se de um padrão.

Passados doze anos, na segunda edição da pesquisa, esse padrão não apenas se manteve, mas se aprofundou. A cobertura da CPI do MST em 2023 revela uma mídia que não só silencia, mas que atua ativamente na construção de uma imagem negativa do movimento. Não se trata mais apenas de ausência, trata-se de produção de sentido. A escolha de fontes, os enquadramentos, as palavras e até o que se decide não cobrir passam a operar juntos para reforçar uma narrativa já conhecida: a de que lutar por direitos é, em si, visto como crime.

Um dos elementos que mais chama atenção na análise recente é como determinados atores ganham centralidade na cobertura, mesmo quando carregam acusações ou histórico controverso, enquanto o próprio movimento segue sendo secundarizado. A mídia amplifica vozes alinhadas a interesses específicos, muitas vezes sem o mesmo rigor ou questionamento que aplica ao MST. O desequilíbrio não é obra do acaso, ele é estrutural, é decisão política.

Outro ponto importante é a presença cada vez mais organizada de um ecossistema de comunicação ligado ao agronegócio. Não estamos falando apenas de veículos tradicionais, mas de uma engrenagem que inclui produção de conteúdo próprio, circulação de narrativas e reforço mútuo entre diferentes plataformas. A pesquisa de 2023 mostra como esse sistema se articula também a partir da escolha recorrente de fontes, especialmente representantes do agronegócio e parlamentares ruralistas, que passam a ocupar lugar central na construção das notícias, com raros contrapontos. Soma-se a isso a existência de veículos e canais diretamente vinculados ao setor, que produzem conteúdo com caráter abertamente opinativo, mas com aparência de “jornalismo objetivo”, influenciando o debate público de forma mais ampla.

Além disso, há uma circulação quase espelhada de enquadramentos entre diferentes veículos, que reproduzem as mesmas interpretações, os mesmos termos e, por vezes, as mesmas agendas. Não é apenas coincidência editorial, é a consolidação de uma narrativa que se fortalece e se legitima na repetição. A consequência é um cenário em que determinadas visões, como a do agronegócio, ganham aparência de consenso, enquanto outras, como a do MST, seguem sendo marginalizadas. Não é apenas falta de pluralidade, é convergência de interesses.

A pesquisa também evidencia como elementos como o machismo atravessam a cobertura. A forma como deputadas e mulheres ligadas ao tema são tratadas, tanto na CPI quanto na repercussão midiática, revela que não é só sobre o MST, mas sobre quais vozes são consideradas legítimas no debate público.

E há ainda um aspecto simbólico que atravessa toda a cobertura: a ideia de que reivindicar direitos pode ser interpretado como crime. Ao repercutir determinados episódios sem contextualização, ao reforçar enquadramentos punitivistas e ao ignorar as causas estruturais da luta pela terra, a mídia contribui para naturalizar essa inversão perigosa.

No fim das contas, o que as duas pesquisas mostram, com doze anos de distância, é a permanência de um problema profundo no sistema de comunicação brasileiro. A promessa de imparcialidade não se sustenta quando olhamos para quem fala, quem é ouvido e quais narrativas são priorizadas. E é justamente por isso que falar em direito à comunicação é falar em democracia.

Não existe democracia plena quando movimentos sociais são sistematicamente silenciados ou distorcidos. Não existe pluralidade quando a mesma história é contada sempre a partir de um único ponto de vista. E não existe debate público qualificado quando parte dos sujeitos políticos é reduzida a estereótipos.

O MST segue ocupando terras, mas também segue ocupando sentidos. Segue disputando narrativas, produzindo alimentos, construindo alternativas e insistindo em existir, mesmo quando tentam apagá-lo. Não por acaso, é hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, com uma colheita que chegou a 14 mil toneladas na safra 2022/2023, além de uma produção diversa que inclui café, leite, feijão e mel. Ao mesmo tempo, avança em práticas agroecológicas, chegando, em 2025, a 49% das famílias já adotando sistemas como agroflorestas.

Durante a pandemia de Covid-19, o movimento também se consolidou como um dos principais atores sociais no enfrentamento à fome, com a doação de mais de 6 mil toneladas de alimentos e mais de 1 milhão de marmitas para populações em situação de vulnerabilidade em todo o país. Ainda assim, essa dimensão de sua atuação raramente ganha espaço na cobertura midiática.

O que se repete é a imagem do conflito, da ilegalidade, da ameaça. Enquanto a mídia insiste em enquadrar o movimento a partir da criminalização, ela também escolhe não mostrar que é esse mesmo movimento que produz alimento, organiza territórios e constrói, na prática, alternativas ao modelo que concentra terra, renda e poder.

E nós seguimos juntos, lutando para que essas vozes sejam ouvidas, para garantir o direito à comunicação, pois essa não é apenas uma tarefa do campo da comunicação, mas é também um compromisso com o próprio futuro da democracia brasileira e mesmo do bem-estar do planeta.

*Júlia Lanz é jornalista, especialista em comunicação política e associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.