A primeira etapa do FIP será realizada em Manaus, no mês de novembro.
O Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social anunciou o lançamento do Festival da Internet dos Povos (FIP), com o lema “conexões para sustentar o céu”. A iniciativa, que vem sendo construída junto a diversas organizações, tem o objetivo de promover debates sobre internet e direitos digitais a partir da perspectiva dos povos impactados pelos principais projetos do universo digital e que historicamente são excluídos das esferas de decisão. “Os espaços tradicionais ainda são elitistas, técnicos, pouco diversos e que falam para quem já domina a linguagem. Ficam de fora as comunidades que mais sofrem com os efeitos do poder das big techs”, afirma Júlia Lanz, da coordenação do Festival e associada ao Intervozes.
Com a proposta de ser uma articulação contínua, o Festival prevê a realização de ao menos quatro etapas presenciais. A primeira edição do FIP acontecerá em Manaus, no Amazonas, entre os dias 26 a 28 de novembro. No primeiro semestre de 2027, outras duas etapas acontecerão em São Paulo (SP) e em Salvador (BA). A iniciativa também irá contar com uma ação de incidência em Brasília, também em 2027, com o objetivo de levar às contribuições acumuladas ao longo do Festival para o centro político do Brasil.
Dentre os debates propostos, está a atuação das grandes plataformas digitais e seus impactos nos territórios: a desinformação, vigilância, extração massiva de dados, apagamento das narrativas das comunidades impactadas, o racismo algorítmico, a violência de gênero e sistemáticas violações de direitos. A expectativa é que a articulação construída em torno do Festival não busque apenas disputar a governança da internet, mas produzir dissidências que não possam ser controladas pelas estruturas cibernéticas que regulam a vida e as sociedades em todo o mundo.
“Acreditamos que as soluções para os problemas da internet não virão de cima para baixo, mas do chão que a gente pisa, das vivências dos nossos corpos e das tecnologias ancestrais que já existem em nossos territórios”, afirma Gave Cabral, membro do Intervozes e que também compõe a coordenação do FIP. O Festival também pretende fortalecer comunidades, organizações e movimentos que estão na linha de frente da construção de alternativas, a partir da convergência das agendas políticas e da articulação de ações em rede. O Festival também chama a atenção para a necessidade de repensar as atuais infraestruturas tecnológicas da internet que caminham em direção a um colapso socioambiental.
Princípios e eixos temáticos
A construção do Festival da Internet dos Povos parte de princípios que norteiam a iniciativa. Dentre eles, está a defesa de uma autonomia tecnológica e livre, além da soberania popular sobre a tecnologia, garantindo que as comunidades e territórios tenham o direito de decidir, gerir e desenvolver suas próprias práticas e infraestruturas. Compreendendo que tecnologias digitais e tecnologias ancestrais não são opostas, o FIP também pretende promover diálogos entre diversos saberes de forma interseccional, agregando lutas e reflexões como, por exemplo, justiça socioambiental, violências (e resistências) de gênero, raça e orientação sexual, além de conceber o acesso ao conhecimento de forma gratuita, acessível e inclusiva.
Durante as etapas presenciais do Festival, os debates serão realizados a partir de múltiplas linguagens. Oficinas, rodas de conversa, exposições, debates, apresentações culturais, instalações e intervenções urbanas são algumas das formas de expressão que inspiram o FIP. Os eixos temáticos previstos para estimular os debates e intervenções são: construção e experiências de autonomia tecnológica; conectividade significativa centrada em comunidades; tecnologias ancestrais e saberes tradicionais; tecnologias, gerações e educação; desinformação, vigilância e controle; gênero, diversidade, raça e tecnologia; comunicação popular e contra-hegemônica; radiodifusão digital, convergência e infraestrutura; e plataformização da vida, modelos de negócio e justiça socioambiental.
Pré-lançamento em Manaus
Nos dias 16 e 17 de setembro, o coletivo Abaré e o Grupo de Pesquisa em Comunicação, Inovação Social e Tecnologias Digitais (GP Ativa), com o apoio do Intervozes e da Faculdade de Comunicação e Informação (FIC/Ufam) promoveram na Universidade Federal do Amazonas a “Jornada Ativa de Comunicação, Inteligência Artificial e Sociedade”. As atividades realizadas pela Abaré durante a jornada fazem parte da agenda preparatória do FIP.
Com o lema “Tecno-retomada: (re)inventando direitos na era das plataformas”, o evento contou com a participação de mais de 200 pessoas durante os debates abertos. Além dos debates, também foram realizadas oficinas e rodas de conversa sobre temas como autonomia e retomada tecnológica, regulação cidadã e participação comunitária. Dentre as participantes do evento, estavam representações de 14 organizações, de cinco estados da região amazônica, e que compõem a rede do projeto Amazônia Livre de Fake, uma iniciativa coordenada pelo Intervozes e construída em rede, cujo trabalho já resultou no monitoramento e reflexões sobre a cadeia de desinformação que impacta a região.
A expectativa é que redes como essa também estejam presentes em novembro, na etapa do FIP em Manaus. Até lá, outras atividades preparatórias devem ocorrer. Os pré-lançamentos também estão previstos para Salvador e São Paulo, em 2027, além de uma agenda contínua de mobilização e construção coletiva do Festival. As pessoas e organizações que desejem somar nesse processo podem entrar em contato com o Intervozes através do e-mail: intervozes@intervozes.org.br.