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NOTA DE SOLIDARIEDADE AO COLETIVO AUTISTICI/INVENTATI

NOTA DE SOLIDARIEDADE AO COLETIVO AUTISTICI/INVENTATI

O Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social manifesta solidariedade ao coletivo italiano Autistici/Inventati e repudia a decisão arbitrária do governo dos Estados Unidos de incluí-lo, em 26 de agosto de 2026, na lista de Terroristas Globais Especialmente Designados. A medida, aplicada pelo Departamento do Tesouro, também atingiu a organização britânica Palestine Action e a transnacional Masar Badil, em um movimento que escancara uma perigosa guinada autoritária: o governo estadunidense, sob a administração Trump, decidiu que antifascismo, anticapitalismo e defesa da privacidade são equivalentes a terrorismo.

O Autistici/Inventati é um coletivo autogerido que há 25 anos oferece infraestrutura digital gratuita e focada em privacidade (e-mails criptografados, hospedagem de sites, listas de discussão, chat e videoconferência) como alternativa às grandes plataformas comerciais que dominam a internet. Sua existência é parte fundamental da luta por autonomia tecnológica e soberania digital num mundo onde poucas corporações controlam a comunicação de bilhões de pessoas. Essa infraestrutura, que permite que ativistas, jornalistas, pesquisadores e movimentos sociais se comuniquem fora do alcance da vigilância em massa e do rastreamento comercial, foi agora criminalizada.

O governo dos EUA acusa o coletivo de fornecer “apoio material” ao terrorismo simplesmente por disponibilizar ferramentas de comunicação. A lógica é estarrecedora: fornecer um serviço de e-mail ou hospedagem torna-se crime se alguém, em algum lugar, usar esse serviço para algo que o governo estadunidense desaprova. Não se está punindo um ato específico, mas a infraestrutura que viabiliza a própria possibilidade de organização política autônoma. O Autistici/Inventati não é uma multinacional bilionária, é um coletivo que reivindica abertamente seus princípios antifascistas, antirracistas, anticapitalistas e antimilitaristas, e é exatamente por isso que está sendo atacado. Essa decisão deixa nítido que estamos diante de uma seleção política de alvos.

As consequências práticas já são brutais e revelam o alcance extraterritorial do poder estadunidense: o domínio autistici.org foi suspenso pelo registrador .org, tornando os serviços inacessíveis para milhares de usuários no mundo; a conta do PayPal foi bloqueada; e o Banca Etica comunicou o encerramento da conta bancária sob o argumento de risco de sanções secundárias. Uma decisão tomada em Washington produz efeitos diretos sobre instituições financeiras italianas e sobre a infraestrutura digital global, esta é a face mais concreta do controle corporativo e do autoritarismo estatal sobre a comunicação: bancos, registros de domínio e provedores ao redor do mundo se apressam em romper vínculos para evitar represálias, independentemente da legalidade ou legitimidade da medida.

A autonomia tecnológica que o Autistici/Inventati representa, com a possibilidade de existirem servidores independentes, comunicações criptografadas e plataformas não comerciais, é uma das condições materiais fundamentais para que movimentos sociais e organizações da sociedade civil possam existir e resistir com segurança e direitos fundamentais garantidos. O que estamos presenciando é a criminalização da infraestrutura da dissidência. Primeiro ampliou-se a categoria de terrorismo, depois decidiu-se que a punição vem antes do ato ocorrer, e a culpa é definida pela mera possibilidade técnica de que o crime, em algum momento, ocorra. Isso tudo em um momento histórico em que o fascismo real, organizado, violento e crescente em todo o mundo, segue impune ou, pior, é tolerado, quando não incentivado por governos que se dizem democráticos.

A administração Trump e seus aliados têm a audácia de chamar de terroristas aqueles que se opõem ao fascismo. Quando sabemos que o antifascismo é a defesa da vida e da democracia, que historicamente foram os antifascistas que sempre estiveram na linha de frente contra o nazismo, o racismo e a violência da extrema-direita. Mas o fascismo, que é a negação de tudo isso, está sendo tratado como uma opinião política legítima, enquanto se organiza, avança e mata impunemente. O Intervozes se recusa a aceitar essa lógica.

Sabemos que o Autistici/Inventati proporciona infraestrutura, autonomia e segurança digital e que Palestine Action e Masar Badil lutam pela autodeterminação dos povos e expressam a resistência palestina. Construir alternativas livres e seguras de comunicação é exercício de soberania e democracia, assim como defender a privacidade e a autonomia tecnológica é resistir à vigilância em massa e ao controle corporativo. O antifascismo e o anticapitalismo são respostas necessárias a sistemas de opressão e denunciar que o fascismo é o verdadeiro terrorismo é um imperativo ético e político.

Em solidariedade ao Autistici/Inventati, às organizações Palestine Action e Masar Badil, e a todos os que constroem infraestruturas livres e independentes, manifestamos nosso apoio incondicional à luta por autodeterminação digital e dos povos, à defesa da privacidade como direito fundamental e à construção de alternativas às plataformas controladas por grandes corporações e governos autoritários. Por fim, reafirmamos que enquanto o fascismo seguir sendo tratado como opinião e o antifascismo como terrorismo, certamente estaremos ao lado de quem resiste e constrói mundos possíveis.

O antifascismo, o anticapitalismo, a defesa da privacidade e a solidariedade internacional não são terrorismo.

Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
02/09/26