Disputas de memória e representação da ditadura no audiovisual brasileiro
Por Mônica Mourão*
O cinema brasileiro tem sido profícuo em representar a ditadura civil-militar (1964-1985). Nas duas últimas edições do Oscar, as indicações brasileiras de melhor filme internacional foram “Ainda estou aqui” (2024) e “O agente secreto” (2025), que se passam durante a ditadura. A repercussão dos dois na esfera pública tem mostrado um Brasil orgulhoso de suas tradições e produções artísticas e culturais, como bem se viu com os bonecos de Olinda de Fernanda Torres, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho. Mas também é um Brasil ainda incapaz de se livrar da perna cabeluda que o assombra.
Mais especificamente, “Ainda estou aqui” provocou demandas por políticas de memória, verdade e justiça. Militantes do Levante Popular da Juventude realizaram um escracho em frente à casa de um dos assassinos de Rubens Paiva, José Antônio Belham, no dia 24 de fevereiro de 2025. No dia 4 de março seguinte, o bloco de carnaval Orquestra Voadora fez cortejo no mesmo lugar, aos gritos de “Sem anistia!”, conectando os assassinos da ditadura aos golpistas de 8 de janeiro de 2023, que ainda seriam julgados.
O filme reverberou também na política institucional. Em 23 de janeiro de 2025, foi feita uma correção na certidão de óbito de Rubens Paiva, responsabilizando o Estado pela sua morte violenta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu um pedido de desculpas às famílias de vítimas da ditadura, o que aconteceu em cerimônia conduzida pela ministra dos Direitos Humanos Macaé Evaristo, no dia 24 de março de 2025. O lugar foi o cemitério de Perus, onde foram enterrados vários corpos de desconhecidos e de vítimas do regime, símbolo do crime de ocultação de cadáver. Sobre este assunto, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino defendeu, em julgamento no STF, que a Lei da Anistia não pode abranger crimes permanentes, visto que concedeu perdão para crimes políticos entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. A anistia não poderia valer quando a situação se perpetua, o que acontece com os corpos desaparecidos.
O ministro Alexandre de Moraes pediu vistas no dia em que o julgamento se iniciou, em 13 de fevereiro deste ano. Enquanto isso, já morreram quatro dos cinco assassinos de Rubens Paiva. Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador de Dilma Rousseff, homenageado por Jair Bolsonaro na votação pelo impeachment da então presidenta, em 2016, também não pode mais pagar pelos crimes que cometeu. O mesmo acontece com Sebastião Curió pelas violações de direitos humanos e ocultação de cadáveres de camponeses e militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) durante a Guerrilha do Araguaia.
No dia 25 de outubro de 2025, a presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Maria Elizabeth Rocha, pediu desculpas para a família do jornalista Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), durante ato ecumênico em memória dos 50 anos de seu assassinato sob tortura. A presidente teve sua fala publicamente criticada, com forte componente misógino, por um brigadeiro que sugeriu que ela deveria estudar mais.
Com tantas questões não resolvidas, a perna cabeluda pode voltar, a depender da maré.
Quando a maré puxa para a direita
A direita tem também construído suas narrativas audiovisuais sobre a ditadura, embora não sejam produções dignas de indicações ao Oscar ou mesmo de passar nas salas de cinema. Em 2019, a produtora Brasil Paralelo, que faz conteúdos audiovisuais de direita, tentou que seu filme sobre a ditadura (“1964, o Brasil entre armas e livros”) estreasse no cinema. A despeito de sessões de pré-estreia realizadas em salas da Cinemark de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Recife e São Paulo, no dia 31 de março daquele ano, a rede voltou atrás. As exibições que deveriam acontecer posteriormente foram canceladas, e a Cinemark lançou nota afirmando que “não se envolve com questões político-partidárias” e que a pré-estreia teria sido “um erro de procedimento em função do desconhecimento prévio do tema” (Correio Braziliense, 2019). Os apoiadores da ditadura, em resposta, conseguiram colocar a hashtag #BoicoteCinemark em primeiro lugar nos trending topics do Twitter. Era o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, e seu filho Eduardo foi um dos grandes entusiastas do filme, divulgando-o em suas redes sociais.
O ódio da direita contra os opositores da ditadura segue sendo destilado no canal da Brasil Paralelo no YouTube. No programa Rasta News, um apresentador de cabelos grandes, barbudo e com sotaque pernambucano comenta os filmes “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” e, em tom de brincadeira, demarca qual o posicionamento ideológico da produtora que realiza documentários fazendo revisionismo histórico e produz conteúdos misóginos. (Vale lembrar que a produtora está sendo processada pela Advocacia Geral da União por usar documento falso em documentário em que desinforma sobre a história de Maria da Penha; sobre o mesmo caso, a Justiça do Ceará tornou rés quatro pessoas, entre elas o ex-marido e agressor de Maria da Penha e integrantes da Brasil Paralelo).
Ao falar de “Ainda estou aqui”, o apresentador Rasta associa a perseguição a Rubens Paiva ao que seria uma injustiça contra os golpistas de 8 de janeiro de 2023, num discurso que tem reverberado entre a direita nas redes sociais e aparece em alguns comentários em postagens de jornais sobre o filme no Instagram. No vídeo sobre o filme, Rasta solta a seguinte “indireta”: “O que me pega é que o filme é um filme que retrata a história de um político brasileiro que foi perseguido e preso sem saber as acusações. A mulher dele, a mesma coisa. Sem direito a defesa, por algo que não fez. Existe alguém nessa situação no Brasil hoje? Hein?”.
Depois de dizer que é contrário à ditadura e que seu pai foi preso neste período, Rasta demonstra empatia pelo sofrimento da família Paiva. Seu desprezo é direcionado à classe artística: “Fernanda Torres já declarou que esse filme ‘é um ato de resistência! A democracia merece esse filme!’ [em tom de deboche]. Na sua ligação com o Lula, ela fala o quão importante é esse filme. ‘É importante para a arte, é importante para a cultura, que foi tão atacada’. Beleza minha irmã, mas será que a democracia queria esse filme mesmo?”.
Já no vídeo sobre “O agente secreto”, além do desprezo pelo filme, de errar o nome da personagem de Tânia Maria (cuja atuação o apresentador diz admirar), destaca-se o ódio contra o ator Wagner Moura, resultado da frustração do público de direita com a não identificação do ator com o personagem Capitão Nascimento, o policial violento de Tropa de Elite 1 e 2. A misoginia aparece logo no início do vídeo. Após propaganda de um programa infantil feito pela produtora e da abertura de Rasta News, o apresentador diz que o que vai abordar pode ser “apenas mais um assunto para angariar uma eco-rapariga no cinema da Fundação”. Depois de fazer piadas sobre a autoestima pernambucana, o apresentador começa a falar sobre os anos 1970:
“Falando em ‘o filme se passa nos anos 70’, essa é uma mensagem que a gente já entendeu desde o início, mas que o diretor resolveu relembrar a cada cinco minutos com uma foto do Geisel. A ditadura militar é para o cinema brasileiro o que os russos são para o cinema de ação americano dos anos 80. Wagner Moura dá entrevista em Inglês sobre como sobreviver à ditadura, mas a real é que a experiência dele com uma não é assim tão distante da do Bruce Willis com seus antagonistas vermelhos que visitaram o Nakatomi Plaza em ‘Duro de matar’. A real é que a minha geração e a dele, que é dez anos mais velha, escuta sobre a ditadura pelos velhos. E opinião de velho é meio foda, né, meu irmão, porque a gente quer ouvir os velhos, assim pede a tradição, mas é foda que mentiroso envelhece, covarde também envelhece, os canalhas envelhecem”.
O verdadeiro show de preconceito, etarismo e misoginia é aplaudido pela audiência. Nos comentários, o público critica o filme e seu ator principal: “Wagner Moura é disparado o pior personagem da carreira do Capitão Nascimento”; “Sou daqui do Recife, e pra mim o que salva o filme são alguns minutos de imagens nostálgicas do Recife da década de 70. O resto é uma merda”; “Esse filme tem a trilha sonora composta pela dupla sertaneja Nemvi e Nemverei”; “O filme é ruim, o diretor é ruim, a estória é ruim, até o ator ja esta [sic] ficando ruim”.
O programa Rasta News é veiculado no canal da Brasil Paralelo, que tem 4,93 mil inscritos. A produtora se diz uma “mídia independente” que “não aceita um centavo de dinheiro público”. Segundo ela, seu financiamento é feito exclusivamente através da venda de assinaturas, que vão de R$ 10,90 a R$ 65,90 mensais. As informações estão no site da produtora, cujo financiamento é uma caixa preta não desvendada ainda em reportagens investigativas sobre ela. No site, nada é mencionado sobre conteúdo didático produzido pela Brasil Paralelo e usado em escolas do estado de São Paulo durante o atual governo de Tarcísio Freitas, por exemplo.
As disputas em torno da representação da ditadura e de seus opositores segue viva e, embora não produzam conteúdo que tenha reconhecimento dos pares e circule em festivais ou salas de cinema, a produção audiovisual de direita sobre o tema, seja com filmes próprios ou comentários no YouTube, tem o seu público.
Ao afirmar que não aceita dinheiro público, a Brasil Paralelo, de forma desinformativa, mostra o menosprezo da direita pelas políticas de incentivo à cultura. Além de demarcar o posicionamento neoliberal, também ataca justamente as políticas que possibilitam diversidade, entrada no mercado audiovisual de novos atores e construção de narrativas contra-hegemônicas e periféricas, apesar de ainda haver enorme concentração no setor audiovisual brasileiro.
As representações da ditadura pelo cinema, se não podem enterrar de vez a perna cabeluda, este rastro da violência de Estado que insiste em emergir, colaboram para a elaboração coletiva da memória dos anos de chumbo.
*Mônica Mourão é professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Decom/UFRN). Coordena o Grupo de Investigações sobre Linguagem, Memória e Representação (GILMaR). É associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.