O seminário “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos” aconteceu durante a Semana de Ação Climática de Porto Alegre, em julho, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS). Gratuito e aberto ao público, o encontro contou com interpretação em Libras e reuniu jornalistas, pesquisadoras e o cacique kaingang Odirlei Fidelis para debater os limites e os avanços da comunicação pública e da cobertura das enchentes que atingiram o estado em maio de 2024.
Assista à gravação do seminário aqui.
A atividade foi organizada pelo Intervozes, pelo Programa de Pós-Graduação da UFRGS, pelo Sindicato de Jornalistas do RS e pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. O seminário teve apoio do Brasil de Fato, do Sul 21 e da Associação Riograndense de Imprensa (ARI). Dividido em duas mesas, o encontro ocorreu em meio a um novo episódio de chuvas fortes na região, o que atravessou boa parte das falas.
Comunicação pública e o dever de informar
A primeira mesa tratou da comunicação pública e reuniu o jornalista e pesquisador Luciano Velleda e o cacique kaingang Odirlei Fidelis, liderança da aldeia Van Ká, localizada no extremo sul de Porto Alegre. A mediação foi de Júlia Lanz, jornalista e integrante do Intervozes. Velleda abriu a fala situando a comunicação pública como um princípio previsto na Constituição Federal, que estabelece a obrigação do poder público de tornar públicas as informações de interesse da população.
O pesquisador descreveu a comunicação de risco como um campo complexo. “A comunicação de risco tem que lidar com essa complexidade, com a complexidade de um fenômeno que também é complexo”, afirmou. Para ele, uma comunicação de risco efetiva precisa reunir características como apresentar mensagens compreensíveis para diferentes públicos, chegar a tempo de permitir que as pessoas ajam e dar visibilidade ao risco. Esse último aspecto, segundo o pesquisador, depende também da percepção de cada indivíduo, moldada pela bagagem cultural, econômica e política.
Ele também apontou que a Defesa Civil estadual segue utilizando termos técnicos, como “risco geo-hidrológico” e “movimento de massa”, cuja compreensão pelo público em geral considera incerta. “Do ponto de vista técnico, são as palavras corretas, mas para cumprir a função de comunicar e informar quem está na ponta, eu tenho dúvida”, disse.
Outro ponto destacado por Velleda foi a recorrência de orientações genéricas emitidas por autoridades durante a crise de 2024, como o pedido para que a população “se colocasse em segurança”, sem detalhar o que essa orientação significava na prática para quem morava em encostas ou às margens de rios. Para o pesquisador, a credibilidade dos alertas emitidos pelo poder público e a confiança da população são determinantes para que a comunicação cumpra a função. Alertas que não se confirmam ou se mostram insuficientes corroem essa confiança ao longo do tempo.
O relato do cacique Odirlei Fidelis
Odirlei Fidelis, cacique kaingang de uma aldeia situada no extremo sul de Porto Alegre, relatou a atuação da comunidade durante as enchentes de 2024, quando cerca de 70% do território indígena ficou submerso. Segundo o cacique, o alagamento resultou da combinação entre a cheia do Guaíba e a chuva concentrada em poucos dias na região. “A água não tinha para onde escoar. Nós, dentro do nosso território, começamos a receber água de fora”, relatou.
De acordo com Fidelis, a comunidade não contou com o apoio de nenhuma instância governamental durante o período mais crítico. “Se perguntassem para nós: vocês tiveram algum apoio de uma instituição governamental, tipo prefeitura, estado, governo federal? Não. A gente se segurou com os nossos recursos próprios e com pessoas da cidade que nos ajudaram”, afirmou.
Ao tratar da cobertura jornalística, o cacique afirmou perceber um crescente descrédito da população em relação às informações disponíveis, em parte pela dificuldade de diferenciar notícias verdadeiras de conteúdos falsos que circulam, sobretudo, nas redes sociais. “Ultimamente todo mundo tá se achando repórter jornalista”, disse, ao defender que a cobertura da questão ambiental seja feita “com responsabilidade” e de “uma maneira humana”.
Cobertura jornalística e pesquisa acadêmica
A segunda mesa discutiu a cobertura jornalística das enchentes sob a ótica da pesquisa acadêmica e reuniu a professora Eloísa Beling Loose, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS; o jornalista Luís Eduardo Gomes, do Sul21; a editora-chefe Katia Marko e a repórter Clara Aguiar, ambas do Brasil de Fato RS. A mediação foi realizada por João Batista Aguiar, da Associação Riograndense de Imprensa.
Beling Loose observou que a maior parte dos estudos sobre jornalismo e desastres no Brasil tende a analisar a cobertura feita por veículos de grande circulação, como Folha de S.Paulo, O Globo e Jornal Nacional. As pesquisas também costumam se concentrar no produto jornalístico já publicado, em detrimento de estudos sobre os processos de produção da notícia ou sobre a recepção do público. Segundo a pesquisadora, esses trabalhos são mais escassos porque exigem equipes maiores e mais recursos.
A pesquisadora também chamou a atenção para a tendência de a cobertura jornalística se concentrar no momento emergencial do desastre, com menos espaço para o acompanhamento da recuperação em longo prazo. “É muito difícil que o jornalismo, que trabalha focado no presente, para a cobertura factual, dê conta desses processos que são cronificados, que vão permanecer presentes na nossa sociedade”, afirmou.
Segundo Beling Loose, essa dinâmica também dificulta a pesquisa acadêmica sobre o tema, já que a análise da cobertura depende da existência de matérias que tratem da recuperação e da prevenção, não apenas da resposta emergencial.
A professora ainda destacou a existência de diferentes dimensões na comunicação de riscos e desastres — institucional, jornalística e comunitária — que precisam funcionar de forma articulada. Para Beling Loose, a comunicação é um dos fatores que constroem a percepção de risco da população. “A gente não consegue fazer uma comunicação eficiente de riscos se a gente for pensar que todo mundo vai ter mais ou menos o mesmo repertório”, disse, ao reforçar a necessidade de produzir conteúdo adaptado a diferentes públicos.
A cobertura das enchentes por Sul 21 e Brasil de Fato
O jornalista Luís Eduardo Gomes, sócio do Sul21, defendeu que a cobertura de temas climáticos deixe de ser tratada como uma editoria isolada e passe a atravessar todas as áreas de um veículo, da política ao esporte. “A gente não pode colocar isso numa caixinha, como se fosse: essa é a pauta do pessoal do meio ambiente”, afirmou.
Como exemplo, Gomes citou o projeto de construção de torres no entorno do estádio Beira-Rio, tratado por parte da imprensa esportiva apenas como uma questão econômica, sem relação com os riscos ambientais da região.
Gomes descreveu três momentos da cobertura de um desastre — antes, durante e depois — e defendeu que a atenção à questão climática seja permanente, não circunscrita ao momento da emergência. Ele também expressou preocupação com o crescimento, durante as enchentes de 2024, de perfis nas redes sociais e de gabinetes de autoridades que passaram a produzir informações diretamente para a população, muitas vezes sem apuração jornalística.
“Eles acabam passando uma informação sem ter aquele cuidado de fazer uma apuração, de entender o que está acontecendo, de contextualizar com outras questões”, avaliou. O jornalista também alertou para o risco de a cobertura da crise reforçar um tom sensacionalista e defendeu que o acúmulo de conhecimento técnico e de fontes ao longo do tempo permite à imprensa produzir uma cobertura qualificada no momento do desastre.
Katia Marko, editora-chefe do Brasil de Fato RS, que se define como um meio de comunicação popular, relatou que a cobertura da redação se apoiou fortemente em fontes ligadas a movimentos sociais que atuaram na organização de cozinhas solidárias durante a crise. Para Marko, esses movimentos são frequentemente criminalizados pela grande imprensa, e a cobertura do Brasil de Fato buscou dar visibilidade a essas atuações. “A grande imprensa tem lado, e é o lado do capital”, afirmou.
A jornalista também defendeu que o desastre de 2024 teve causas que vão além do fenômeno climático em si. “Um evento climático é natural, a chuva é natural, o desastre não é natural. O desastre é provocado”, disse, ao atribuir parte da responsabilidade aos governos e ao modelo do agronegócio praticado no estado. Ela também defendeu a necessidade de dar voz a povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos como especialistas no tema.
A repórter Clara Aguiar, formada em Jornalismo pela Fabico/UFRGS, relatou que já acompanhava o tema das enchentes como pesquisadora antes de se tornar, como ela mesma se descreve, uma “atingida” pelo desastre de maio de 2024. A partir da experiência, Aguiar decidiu dedicar o trabalho de conclusão de curso à análise da cobertura do Brasil de Fato durante o primeiro mês das enchentes, período em que foram publicadas 178 notícias.
Nos dois anos seguintes ao desastre, Aguiar produziu uma série de reportagens sobre os centros humanitários, a moradia temporária e o processo de reconstrução das famílias atingidas. Aguiar também relatou o impacto da cobertura sobre a própria saúde mental. “Foram três dias de gravação e, todos os dias, eu chegava em casa e chorava”, relatou, ao se referir à produção do documentário “Onde está a reparação?”, realizado pelo Brasil de Fato em parceria com o MAB.
O seminário integrou a programação da Semana de Ação Climática de Porto Alegre 2026.
Assista à gravação do seminário:
*Com informações do Brasil de Fato RS (https://www.brasildefato.com.br/2026/07/24/quando-a-agua-chega-seminario-debate-como-informar-em-meio-a-desastres-climaticos/ )